Pular para o conteúdo principal

Site Médico

PRÉ-DIABETES, EXCESSO DE PESO E SUA RELAÇÃO COM A PANDEMIA DE DOENÇAS CRÔNICAS

O pré-diabetes e o excesso de peso fazem parte de um mesmo problema do metabolismo, a chamada Síndrome Metabólica.

Como estas condições têm evoluído ao redor do mundo?

O número de pessoas com obesidade e diabetes vem aumentando de forma constante em praticamente todos os continentes. Essas condições fazem parte da chamada Síndrome Metabólica e estão ligadas a diversos problemas de saúde. Isto afeta significativamente tanto a qualidade de vida quanto a longevidade. Esse crescimento parece estar relacionado, sobretudo, às mudanças nos padrões alimentares e no estilo de vida ao longo das últimas décadas.

Os gráficos abaixo apresentam a evolução global do número de pessoas obesas e diabéticas ao longo do tempo.

share-of-adults-defined-as-obese (2)

Nota: Os pontos apresentados no gráfico são estimativas aproximadas baseadas nas seguintes fontes: NCD-RisC / The Lancet (1990–2022); Our World in Data; World Health Organization (WHO); International Diabetes Federation (IDF).

O que é o pré-diabetes?

O pré-diabetes é caracterizado por aumentos iniciais dos níveis de açúcar no sangue.

O que é a Síndrome Metabólica? Quais são as causas desta síndrome?

A Síndrome Metabólica é um conjunto de alterações que ocorrem nas reações químicas do corpo, ou seja, em nosso metabolismo, e têm como origem comum a resistência do corpo aos efeitos da insulina – hormônio responsável por controlar os níveis de açúcar no sangue.

Quando as células do corpo se tornam resistentes aos efeitos da insulina, o pâncreas aumenta sua produção deste hormônio para tentar vencer a resistência. O consequente excesso de insulina desencadeia alterações como:

Quanto mais desses itens presentes, maior o risco de diabetes, infarto, AVC e doença hepática. Esses fatores compartilham mecanismos como inflamação crônica, aumento de radicais livres e disfunção dos vasos sanguíneos.

Qual é o médico que lida com o pré-diabetes, o excesso de peso e a Síndrome Metabólica antes de evoluir para doenças crônicas?

O médico que atua de forma precoce e preventiva, antes do desencadeamento de doenças crônicas, é aquele com formação em Nutrologia.

O Dr. Felipe Caixeta é médico graduado pela Faculdade de Ciências Médicas de MG e tem formação em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).

Além disso, possui cerca de 20 anos experiência como clínico geral e 10 anos de atuação com suplementação nutricional.

Também possui especializações em Nutrologia Esportiva e Homeostase Hormonal.

O que é resistência à insulina, afinal?

A insulina é como uma chave que abre as portas das células para a entrada do açúcar (glicose) do sangue.

Na resistência à insulina, essa chave continua existindo, mas a “fechadura” das células passa a funcionar mal. Resultado: o açúcar tem dificuldade para entrar nas células e começa a se acumular no sangue.

Por que isso acontece?

Não há uma única causa — é uma combinação de fatores que, juntos, desgastam o sistema metabólico do corpo.

A alimentação em excesso atrapalha a insulina?

Sim. Quando a pessoa vive por muito tempo com:

Quando isso acontece, as células ficam sobrecarregadas de energia, o que leva a um acúmulo de “gorduras tóxicas” dentro delas. Esta situação atrapalha o sinal da insulina.

É como tentar usar um celular com a memória totalmente cheia — o sistema começa a travar.

A inflamação pode piorar a resposta à insulina?

A gordura localizada na barriga (gordura visceral) libera substâncias inflamatórias no corpo. Essa inflamação silenciosa prejudica o funcionamento da insulina nos tecidos.

O estresse e o sono têm influência?

Sim. Estresse crônico e poucas horas de sono elevam hormônios como o cortisol e a adrenalina, que aumentam o açúcar no sangue e dificultam a ação da insulina. Em outras palavras: dormir mal e viver muito estressado favorece o pré-diabetes.

Por que evitar o sedentarismo é tão importante?

Porque o músculo é o maior consumidor de açúcar do corpo. 

Quando a pessoa é sedentária:

Já o exercício melhora a sensibilidade à insulina por até 48 horas — mesmo sem emagrecer.

O que acontece quando as células deixam de responder bem aos efeitos da insulina?

Quando as células deixam de responder bem aos efeitos da insulina, o corpo precisa produzir cada vez mais insulina para manter a glicose normal, o que leva a:

Não é apenas “o começo do diabetes”: é um distúrbio que afeta o corpo inteiro.

Figura – Distribuição da glicose entre o sangue e os tecidos nas situações “sem insulina”, “com insulina” e “resistência a ação da insulina” (ilustração esquemática).

Na Síndrome Metabólica, quais regiões do corpo ficam mais resistentes à insulina?

Três tecidos são os principais protagonistas:

1. Músculo — o principal vilão silencioso

O músculo normalmente capta a maior parte do açúcar depois das refeições.
Quando ele se torna resistente à insulina:

Isso explica por que muitas pessoas têm:

2. Fígado — responsável pelo açúcar em jejum

À noite, enquanto dormimos, o fígado produz um pouco de glicose para manter o corpo funcionando.

A insulina normalmente diz ao fígado: “pare de produzir açúcar”.

Na resistência à insulina, o fígado não escuta bem esse comando e continua liberando glicose no sangue — mesmo quando não deveria.

É por isso que muitas pessoas têm açúcar alto em jejum.

Além disso, esse processo está muito ligado à esteatose hepática (gordura no fígado).

3. Gordura — onde começa o círculo vicioso

No tecido adiposo saudável, a insulina segura a gordura dentro das células.
Quando a gordura se torna resistente à insulina, ela passa a liberar muitos ácidos graxos no sangue. Esses ácidos graxos vão para:

Isso cria um ciclo vicioso metabólico:
Mais gordura livre → pior resistência à insulina → mais açúcar no sangue → mais insulina → mais inflamação.

O que tudo isso significa na prática?

A resistência à insulina leva a:

Por que os casos de Síndrome Metabólica estão aumentando?

Ocorreram mudanças na alimentação ao longo do tempo, passamos a consumir:

A dieta moderna, rica em carboidratos e pobre em fibras, frequentemente leva ao pré-diabetes, excesso de peso e as doenças crônicas mais comuns.

Porque alimentos ricos em farinhas, açúcares ou amido e pobres em fibras podem levar a Síndrome Metabólica?

Aqui está um gráfico comparando os níveis de insulina ao longo do dia em uma dieta rica em carboidratos refinados versus uma dieta rica em fibras (carboidratos complexos):

Figura – Comparação da resposta de insulina ao longo do dia em diferentes padrões alimentares.

Porque alimentos ricos em farinhas, açúcares ou amido e pobres em fibras são prejudiciais:

Porque medir a insulina é importante?

Portanto, é necessária uma mudança de foco, do controle da glicemia para o controle da insulina.

Como a Síndrome Metabólica se relaciona com a hipertensão, diabetes, colesterol alto e as doenças do coração e dos vasos sanguíneos?

1. Hipertensão arterial

A hipertensão, portanto, é tanto consequência quanto componente da síndrome metabólica.

2. Diabetes Mellitus Tipo 2

Ou seja, a síndrome metabólica é um estágio precursor do diabetes.

3. Dislipidemias

A resistência à insulina estimula o fígado e o tecido gorduroso a aumentarem sua liberação de moléculas de gordura no sangue (triglicérides e ácidos graxos). Isto acaba causando:

Essa combinação é chamada de dislipidemia aterogênica, típica da síndrome metabólica.

4. Doenças Cardiovasculares

A combinação de pressão alta, inflamação, colesterol alterado e gordura abdominal acelera o entupimento das artérias. Ocorre rigidez arterial, inflamação vascular e acúmulo de placas ateromatosas, que aumentam o risco de:

Por isso, a síndrome metabólica é considerada um marcador precoce de risco cardiovascular global.

Em resumo:

Quais são as possíveis consequências da resistência à insulina e da Síndrome Metabólica?

Em resumo: a resistência à insulina é um fator central para o desenvolvimento de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, fígado gorduroso e distúrbios hormonais.

Como é feito o diagnóstico da Síndrome Metabólica?

São usados critérios como os da Federação Internacional de Diabetes (IDF) ou do Programa Nacional de Educação sobre Colesterol (NCEP) dos Estados Unidos.

O diagnóstico é feito quando há três ou mais dos fatores abaixo:

1. Circunferência abdominal aumentada:

⇒ Homens: > 102 cm

⇒ Mulheres: > 88cm

2. Triglicérides elevados

⇒ acima de 150 mg/dL

3. HDL (“colesterol bom”) baixo 

⇒ Homens: < 40 mg/dL

⇒ Mulheres: < 50 mg/dL

4. Pressão arterial elevada

⇒ Maior ou igual a 130/85 mmHg ou uso de medicamento anti-hipertensivo

5. Glicemia de jejum elevada

⇒ Maior ou igual a 100 mg/dL ou uso de medicação para diabetes

Quais são os valores de referência da insulina em jejum (insulina basal) e qual é sua relação com o índice de massa corporal (IMC)?

1. Valores de referência da insulina basal em jejum:

Observação: Esses intervalos são frequentemente utilizados na prática clínica funcional e metabólica para estimar sensibilidade à insulina, mas a interpretação deve considerar o contexto clínico e outros fatores metabólicos.

2. Existe uma relação entre o peso corporal (medido pelo IMC) e os níveis de insulina em jejum. Por isso, alguns laboratórios determinam a faixa de normalidade da insulina de acordo com o IMC do paciente.

Este fato sugere que quanto menores forem os níveis de insulina, menor será a tendência ao sobrepeso e a obesidade.

O que é o HOMA-IR e como ele é calculado?

Para uma avaliação mais precisa da resistência à insulina, é importante calcular o HOMA-IR:

O HOMA-IR (Homeostasis Model Assessment of Insulin Resistance) é um índice que estima a resistência à insulina a partir de dois exames simples: glicemia de jejum e insulina de jejum.

Ele não mede diretamente, mas fornece uma boa estimativa clínica de quão difícil está sendo para o corpo usar a insulina de forma adequada.

Como é calculado o HOMA-IR:

Como interpretar o resultado (valores aproximados):

Os valores podem mudar de acordo com o país, laboratório e população estudada, mas segue como referência prática:

Em práticas clínicas, muitos médicos consideram ≥ 2,5  como suspeito de resistência à insulina.

  • ⇒ Normal: HOMA-IR < 2
  • ⇒ Resistência insulínica: HOMA-IR ≥ 2,5 (em adultos)

O que o HOMA-IR indica?

Um valor elevado sugere:

Resistência à insulina

  • ⇒ Maior risco de pré-diabetes
  • ⇒ Maior risco de diabetes tipo 2
  • ⇒ Maior risco cardiovascular
  • ⇒ Facilidade para ganho de gordura, especialmente abdominal
  •  

Exemplo rápido

Glicemia de jejum = 100 mg/dL
Insulina de jejum = 12 µU/mL

HOMA−IR= 2,96

→ Indica resistência à insulina moderada.

É possível reverter o hiperinsulinismo e a Síndrome Metabólica? Como é feito o tratamento?

  • → Em primeiro lugar, é necessário fazer um monitoramento regular dos níveis de insulina e dos valores do índice HOMA, como forma de intervenção precoce nos pacientes com níveis elevados.
  •  
  • → Foi verificado em alguns trabalhos que, após mudanças nos hábitos de vida, é possível uma diminuição nos níveis de insulina e na resistência à insulina.
  •  
  • → Reduzir carboidratos simples e ultraprocessados:
  •  
      • • Aumentar fibras e alimentos naturais
      • • Praticar atividade física
      • • Dormir bem e controlar estresse
      • • Reduzir os alimentos calóricos para diminuir a gordura abdominal
      •  
  • → Além disso, podemos lançar mão de medicamentos para perda de peso e suplementos nutricionais para melhorar o perfil metabólico.
  •  
  • → Pacientes com síndrome metabólica que evoluem para diabetes, hipertensão, dislipidemias ou cardiopatias também devem usar medicamentos para controle destas doenças.

Dá para melhorar a resistência à insulina?

Sim — e bastante.

As três medidas mais eficazes são:

  • ⇒ Perder 5–10% do peso (quando há sobrepeso ou obesidade).
  • ⇒ Fazer exercício regular (aeróbico + força).
  • ⇒ Melhorar a alimentação (menos ultraprocessados, mais fibras, menos açúcar).

Em alguns casos, o médico pode indicar medicamentos como Metformina ou tratamentos para obesidade.

Mensagem final

A resistência à insulina não é um problema do pâncreas — é principalmente um problema do estilo de vida moderno. Cuidar da alimentação, do movimento, do sono e do estresse é a forma mais poderosa de prevenir os problemas desta síndrome, como a diabetes e doenças do coração.

Leia também